
Se eu contasse a história delas em um texto simples, as palavras pareceriam estáticas demais para criaturas que correm com o vento e dançam sob a lua. O folclore não precisa ser apenas lido, precisa ser sentido. Por isso, Esqueçam os livros de biologia e os mapas geográficos. Abram o coração para o compasso da nossa terra. Hoje, eu não vou apenas listar nomes. Vamos abrir o portal da mata.
As lendas ganharam voz. Elas vieram cantar a própria história, rimar seus segredos e arrastar cada um de vocês para dentro desse mistério.

Quando a meia-noite chega, eu começo a correr,
Pelas estradas escuras, sem ninguém me deter,
Fogo sai das ventas, fogo no meu olhar,
E o som dos meus cascos faz a terra estremecer.
Não tenho meu rosto, não posso chamar,
Não tenho palavras, só sei galopar,
Sou chama e sou culpa, condenada a vagar,
Toda noite renasço sem poder descansar.
Lá vem meu galope: tum, tum, tum,
Pela estrada vazia: tum, tum, tum,
Se ouvir meu relincho, não tente olhar,
Que a Mula sem Cabeça já vem pra passar,
Aqui se faz aqui se paga, amaldiçoada.
Dizem que sou monstro, dizem que sou má,
Mas ninguém sabe a história que me fez chegar lá,
Carrego uma maldição que não deixa esquecer,
E quanto mais eu corro, mais quero desaparecer.
Quando o sol aparece, meu fogo se desfaz,
A noite vai embora, mas a culpa fica atrás,
E quando a lua voltar e o silêncio cair...
Eu volto pela estrada,
sem cabeça, sem fim.

Eu era uma menina que a Lua chamou,
Toda noite eu olhava pra onde ela morou,
Queria ser estrela, queria brilhar,
Sem saber que a Lua não podia me amar.
Numa noite, eu a vi refletida no rio,
Tão perto, tão linda, no silêncio vazio,
Mergulhei nas águas querendo alcançar,
Mas a Lua se foi sem deixar de brilhar.
O rio me levou para o fundo, enfim,
E a noite chorou quando eu cheguei ao fim,
Mas a Lua, com pena, olhou para mim,
E mudou meu destino, não deixou ser o fim.
Fez nascer sobre as águas uma flor de luar,
Com folhas tão largas, pra Lua tocar,
E desde essa noite, quando o céu se abrir,
Eu floresço ao seu brilho, só pra lhe sorrir.
Se me vir no silêncio, boiando no rio,
Sou o sonho de uma menina vencendo o vazio,
Meu nome é Vitória, meu berço é o luar,
E mesmo sem ser estrela...
eu aprendi a brilhar.

Eu nasci onde o rio não tem fim,
Onde a lua se deita sobre mim,
Sou segredo das águas, sou voz do luar,
E quando a noite chama, eu volto a cantar.
Visto branco, ponho o meu chapéu,
Vou dançar sob as estrelas do céu,
Mas ninguém sabe a dor que eu escondo,
Pois conquisto um coração e depois me afundo.
Eu prometo carinho, prometo voltar,
Mas o dia amanhece e eu preciso nadar,
Deixo um nome sem pai, uma espera sem fim,
E um coração perguntando por mim.
Não sou só o encanto que o povo contou,
Nem o homem perfeito que a noite inventou,
Sou metade saudade, metade ilusão,
Um mistério das águas, perdido na escuridão.
Se ouvir meu assobio quando a lua nascer,
Não procure meus olhos, não tente entender,
Pois eu sou o segredo que o rio guardou:
Um amor que a correnteza levou...
e o próprio boto nunca mais encontrou.

Quando a noite cai, eu começo a assobiar,
Lá do fundo da mata, ninguém vai me encontrar,
Batem portas, rangem telhas, ninguém quer dormir,
Meu assobio corta a noite: não adianta fugir.
Trago mau agouro, trago a insônia, trago azar,
Trago o medo que se esconde na memória,
Quem me ouve pela janela não consegue descansar,
Pois enquanto eu estiver cantando, a noite vai durar.
Assobio uma vez, ninguém vem responder,
Assobio outra vez, faço a casa estremecer,
Se perguntar quem sou, não espere me ver,
Sou velha, sou ave, sou mulher... depende de quem contar e de quem temer.
Mas quando o dia nasce e o sol vem me buscar,
Eu deixo um último assobio perdido pelo ar,
E quem passou a noite inteira sem conseguir dormir
Só descobre ao amanhecer que eu ainda estava ali.
Então feche a janela, apague o lampião,
Não dê meu nome à noite, não chame a assombração,
Porque se ouvir meu assobio vindo devagar...
Matinta está na mata,
e a noite vai começar.

Eu fui filha da mata, nascida do chão,
Tinha fogo nos olhos, coragem nas mãos,
Mas a noite levou o que eu mais amei,
E nas águas profundas foi onde eu fiquei.
Hoje eu canto baixinho pra quem vem escutar,
Minha voz é bonita, mas faz naufragar,
Não é por maldade que eu faço chamar,
É que a minha tristeza aprendeu a cantar.
Eu penteio os cabelos na beira do rio,
Sob a lua que assiste ao meu canto vazio,
Quem me vê de tão perto já não quer partir,
E eu também não queria deixar ninguém fugir.
Dizem que sou encantada, que gosto de enganar,
Mas ninguém viu meu pranto escondido no mar,
Eu não roubo os amantes por querer possuir,
Só queria alguém que ficasse... e não precisasse partir.
Então, se escutar minha voz pela noite,
Não siga o meu canto, por mais que ele açoite,
Pois quem busca meu rosto nas águas sem fim,
Pode encontrar uma Iara...
ou se perder dentro de mim.

Eu venho no vento, ninguém vai me pegar,
Num giro ligeiro começo a rodopiar,
Um gorro vermelho, um cachimbo na mão,
E uma perna só pulando pelo chão.
Eu escondo as coisas, desato o cordão,
Apago o fogo, faço confusão,
Se você me procura, eu sumo no ar,
Viro redemoinho e começo a gargalhar.
Fiu, fiu! — ouça meu assobio,
Vem lá da mata, cortando o frio,
Fiu, fiu! — quando eu aparecer,
Feche bem a porteira se não quiser correr!
Não sou só travessura, também sei proteger,
Conheço cada segredo que a mata quer esconder,
Quem respeita a floresta pode ser meu amigo,
Mas quem machuca a mata... vai brincar comigo.
Quando a ventania passa e o silêncio voltar,
Pode olhar pro caminho, talvez eu esteja lá,
Um pulo, uma risada, um giro no ar...
Sou Saci, sou mistério,
ninguém vai me alcançar!

No fundo da mata, ninguém vai notar,
Um assobio distante começa a ecoar.
Folha se levanta, galho vai tremer,
Tem alguém na floresta... mas você não vê.
Cabelos de fogo, olhos de assombração,
Pés virados pra trás, pisando no chão.
Quem segue as pegadas pensando em me achar,
Vai cada vez mais longe, sem nunca chegar.
Corre, corre, caçador,
A mata já te viu!
Corre, corre, caçador,
O Curupira surgiu!
Eu protejo a floresta, não deixo ferir,
Quem derruba uma árvore vai se perder por aqui.
Posso rir, posso brincar, posso até te assustar,
Mas se machucar a mata, eu vou te castigar.
Quando a noite chegar e o caminho sumir,
Você vai olhar pros lados sem saber pra onde ir.
E aquelas pegadas que encontrou pelo chão...
Eram minhas desde o começo,
te levando na direção errada.
Corre, corre, caçador,
Não tente me encontrar!
Meus pés vão pra um lado,
Minhas pegadas, pra outro lugar.
Se a mata te chamar,
é melhor não responder...
Porque quem entra sem respeito
pode nunca mais volver.

Quando a noite chega e a mãe vai dormir,
Tem olhos na janela esperando você dormir.
Escuta um barulho? Não vá perguntar...
É a Cuca lá fora, esperando você sonhar.
Nana neném,
Que a Cuca vem pegar...
Papai foi pra roça,
Mamãe foi trabalhar.
Ela anda na sombra, rasteja pelo chão,
Tem garras compridas e dentes na escuridão.
Se a criança não dorme, ela vem devagar,
Bate três vezes na porta...
e começa a cantar.
Nana neném...
Fecha os olhos, meu bem...
Nana neném...
Não olha pra ninguém...
No quarto vazio, a janela se abriu,
O vento apagou a vela e a casa dormiu.
Debaixo da cama, um sussurro se ouviu:
“Se você ainda está acordado...”
A Cuca sorriu.
Nana neném,
Que a Cuca vem pegar...
Se você não dormir,
ela vem te procurar.
Nana neném...
O medo de desobedecer e o respeito ao proteger, cada erro deixa um rastro e cada escolha faz sofrer. O castigo ao cobiçar, o cuidado ao falar. O que o dia fez calar e o seu pesar, nas sombras vivem as lendas para lembrar e ensinar. Que todo o mal que se semeia um dia há de retornar.
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